Mude

de Clarice Lispector

Mude, mas comece devagar. Porque a direção é mais importante, que a velocidade.
Sente-se em outra cadeira, no outro lado da mesa. Mais tarde, mude de mesa.
Quando sair, procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho, ande por outras ruas, calmamente, observando, com atenção, os lugares por onde você passa.
Tome outro ônibus. Mude por uns tempos o estilo de roupas.
Dê os seus sapatos velhos, procure andar descalço alguns dias.
Tire uma tarde inteira para passear livremente na praia ou no parque e ouvir o canto dos passarinhos.
Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche gavetas e portas com a mão esquerda.
Durma no outro lado da cama. Depois, procure dormir em outras camas.
Aprenda uma palavra nova por dia numa outra língua.
Corrija a postura. Coma um pouco menos. Escolha comidas diferentes.
Novos temperos, novas cores, novas delícias.
Almoce em outros locais, compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo, jante mais tarde ou vice-versa.
Escolha outro mercado… Outra marca de sabonete, outro creme dental…
Tome banho em novos horários.
Use canetas de outras cores, vá passear em outros lugares, ame muito, cada vez mais.
Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as, seja criativo.
E aproveite para fazer uma viagem despretensiosa, longa, se possível sem destino.
Experimente coisas novas, troque novamente.
Mude, de novo. Experimente outra vez.
Você certamente conhecerá coisas melhores e coisas piores do que as já conhecidas, mas não é isso que importa.
O mais importante é a mudança, o movimento, o dinamismo, a energia. Só o que está morto não muda.

Grupo TRI-ALOHA de Garibaldi